Vinte anos sem Mussum, ou seria “depois de Mussum?”

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Em 29/07/1994 o Brasil perdia um dos maiores nomes do humorismo: morria o multi-talentoso Mussum, como ficou conhecido Antônio Carlos Bernardes Gomes, eternizado especialmente com o personagem parte dos Trapalhões. Mas graças à internet, o estereotipado e caricato sambista do morro, que curte sua cachacinha e a Mangueira, parece cada vez mais vivo e presente.

Multi-talentoso, pois além de humorista, foi músico, compositor e ator. Nascido no Rio de Janeiro, no Morro da Cachoeirinha, estudou em colégio interno, fez curso de mecânico e serviu à Aeronáutica por 8 anos. Via pouco a família, cresceu com uma educação rígida, mas ao mesmo tempo gostava da boemia e do samba.

Minha mãe era cozinheira, era empregada doméstica. Depois de apanhar muito, muda pra lá, muda pra cá, nós fomos morar na São Francisco Xavier. Nessa época, saí do colégio interno - fui aluno da Fundação Abrigo Cristo Redentor, onde aprendi mecânica, me formei em mecânica. Trabalhei como mecânico mais ou menos uns 2 ou 3 anos, logo assim que saí do colégio interno. Aí me alistei na Aeronáutica.

Ainda nos anos 60 foi visto tocando no quartel da Aeronáutica por Herivelto Martins, que o levou para tocar no Copacabana Palace com o grupo Os Modernos do Samba, que rebatizado, o faria reconhecido com Os Originais do Samba, formado por ritmistas de escolas de samba - Mussum tocava reco-reco, mas ainda não era Mussum, e sim "o Carlinhos do Reco-Reco".

Nós tivemos a festa no quartel, e o Herivelto Martins foi. Aí a turma do Herivelto Martins me convidou para pertencer ao show dele. Viu o show do quartel e gostou. Eu compareci, fui ensaiar na Praça Tiradentes, com um grupo que estava se formando para conseguir contrato com o Carlos Machado.
MussumViajaram pelo mundo, ganharam disco de ouro, isso ainda nos anos 60. Não demorou para que as performances bem-humoradas, coreografadas e visuais chamassem atenção da TV, abrindo portas para seu futuro: participar de quadros de humor.

Mussum inicialmente recusou: dizia-se "tocador de reco-reco, não humorista"; pensava nas imagens antigas de humoristas que pintam o rosto, não achava "coisa de homem", provável herança de sua formação militar, rígida. Apesar dela, tinha uma certa dualidade: "milico" e boêmio, conservador e sambista. Seu gosto ia do samba e cachaça, à apreciação de jazz e charutos que desenvolveria anos depois. Torcida por times populares (Flamengo no Rio e Corinthians em São Paulo).

As primeiras participações na TV foram no Bairro Feliz, humorístico da Globo, onde ganhou de Grande Otelo o apelido, lembrando do peixe-enguia, de cor escura, liso, ligeiro. "Você vê que eu não tenho cabelo no braço. Ele ficava me alisando, 'Ô neguinho lisinho…' Aí o Otelo me apelidou de Mussum".

Numa das primeiras versões da Escolinha do Professor Raimundo, sua fala cheia de "is" ganhou forma, com dicas do próprio Chico Anysio. "Eu brincava de falar assim enrolado. O Chico que falou pra mim 'Não Mussum, você deve usar mais 'tranquilis', o 'como de fatis' e 'não tem problemis''".

Estava feita a base dos famosos "cacildis", "forévis". Sua facilidade no improviso e o jeito engraçado de contar causos, levou Wilton Franco a convidá-lo para outro grupo humorístico, na TV Excelsior, o que só aceitou depois de convencido pelo amigo Manfried Santanna. Ele insistia que precisavam ter um negro no time, para melhor representar os tipos tão brasileiros. "Eu falei 'Renato, por que a gente não põe um afrodescendente?', hoje é afrodescendente, né? No meu tempo eu falei: 'por que a gente não bota um negão com a gente?'".

Em 1973, passa a integrar o grupo junto com o amigo (Dedé Santana) e Renato Aragão (Didi); no ano seguinte juntaria-se Mauro Gonçalves, o Zacarias. "Os trapalhões eram a cara do Brasil: tinha o nordestino, que era o Didi; tinha o Dedé, que era o galã da periferia; tinha aquele menininho que não cresceu, que era o Zacarias, e tinha o Mussum, que era o malandro do morro. Aquele cara que bebia e não dava mau exemplo" - explica Aragão.

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Num tempo em que piadas sobre raça não causavam o furor de hoje, Mussum usava e abusava de frases como "negão é o teu passadis" e "quero morrer prêtis se estiver mentindo!". O grupo fazia piadas inconcebíveis para padrões atuais, falava de raça, falava de bebida: Mussum adorava seu "", como chamava a cachaça, e a cerveja ou "suco de cevadis", quase sempre comprados fiado ("faz uma pindureta aí!"). O Antônio Carlos também bebia, mas não admitia que os filhos bebessem na sua frente. "Ele era divertido em casa, mas em primeiro lugar vinha a responsabilidade com os estudos. Era organizado e cobrava organização. Nada podia ficar fora do lugar" conta o filho mais velho, Augusto Cezar.

Piadas controversas ontem, continuam engraçadas hoje - basta ver o sucesso dos vídeos no YouTube, das montagens, camisetas, dos lorem ipsum personalizados (que acidentalmente foram parar até num Diário Oficial). Ainda assim, Mussum não se considerava humorista:

Eu não me acho humorista. Humorista é o Jô Soares, Dedé Santana, Zacarias. O cara se transforma, tem vários tipos. Eu sou cômico, sou um caricato.

Retrato de Mussum

de Marisa Aragão

Mussum retrato de Marisa Aragao

Escultura de Mussum

de Igor Gosling

Mussum de igor gosling

Mussum Godifadis

de Ítalo Carvalho

Mussum Godfadis de caritnarib

Mussum

de Rafael Dante

Mussum de rafadante

Designis Gráfiquis Forevis

de Daniel Goaboy

desigins grafiqs forevis de Daniel Goaboy

Yes, We Cana

de Gabrielle von Koss

yes we cana de Gabrielle von Koss

Mussum

de Francisco Pinheiro

mussum de franchesco

As citações foram tiradas dessa entrevista.

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