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Técnica para criação de pintura digital de Jason Manley

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Navegando pela web em busca de material de qualidade sobre pintura digital no Photoshop, descobri um artigo bastante interessante — e também antigo — que se aplica perfeitamente bem mesmo com mais de dez anos.

O autor é Jason Manley, renomado artista digital que trabalhou para grandes companhias de games e tecnologia, como Activision, idSoftware e Microsoft, e responsável por projetos como o Conceptart.org  e Massive Black Inc.

No tutorial, ele mostra um pouco de seu fluxo de trabalho enquanto pinta digitalmente: como escolhe as cores para criar ambientes mais soturnos ou alegres, fala sobre cores e da influência de grandes mestres da pintura tradicional na arte digital.

Se você também gosta de pintura digital, acompanhe a adaptação para o português que fiz do artigo. Se seu conhecimento de inglês permite, acompanhe o original em Jason Manley: Dark Elf Mage.

Reflexões Artísticas: Um Método Tradicional Para Criar Arte Digital
Por Jason Manley – Janeiro/2001

Espero, com o que vou falar aqui, dar uma mostra não apenas de meu processo de pintura, mas também de minha história e trabalho de artista conceitual na industria de videogames. Começarei falando do meu processo artístico, meus heróis na arte, com os quais aprendi este processo, e da produção geral de uma imagem.

Tendo uma impressão geral ou ideia em minha mente do que quero criar, costumo procurar por recursos que me ajudem (como imagens de espadas, armaduras, ou qualquer imagem e pinturas que me inspirem). Passo algum tempo observando o que encontrei e tento criar a pintura em minha mente. Normalmente é nesse passo que tenho uma ideia dos tipos de cores que farão parte da peça, da atmosfera e iluminação, e do tipo de personagem ou ambiente. Ao ter a impressão ou impulso do que quero, baseado no que preciso para produzir o trabalho, é hora de pintar.

Na pintura de exemplo, preciso de um mago élfico negro com habilidades de xamã. Esse personagem deve ser hábil em magia; quero alguém que pareça ser inteligente, poderoso, forte. Quero pintar alguém que pareça poder sobreviver aos elementos.

Agora que sei plenamente o que vou pintar, faço um rápido brainstorm para juntar os símbolos que preciso (cor, iluminação e objetos). Decido por um céu que sugira tempestade e algumas formas quebradas para obter o ambiente. Não quero nenhuma luz muito forte no personagem, já que será um elfo negro. Mantenho as cores suaves e escolho em minha imaginação a paleta que quero: uma tradicional de complementares de azul e laranja. Esta paleta é usada em muitos filmes de suspense e é apropriada para o clima que quero, ainda mais se usada em uma gama de tons mais escuros. Verde e laranja também compoem uma boa paleta para este tipo de imagem. Um exemplo perfeito de paleta é a do filme Aliens. Quase todo o filme é feito com cores suaves e uma gama de tons escuros. Frequentemente, a única luz realmente mais forte aparece apenas em detalhes pequenos se comparados ao tamanho total da tela. Também são as cores do Halloween. São cores simbólicas.

Também decido neste ponto as formas que vou usar. Sei que não quero nada muito mais limpo e polido do que formas quebradas e espinhos, que sugerem algo mais rude. Tenho tentado desenvolver um meio de criar a atmosfera sem ter que pensar muito sobre ela – só senti-la conforme a arte evolui. Aprendi muito sobre isso apenas observando artes de grandes mestres e assistindo filmes, com atenção às cores e formas usadas quando sinto exaltação, alegria, tristeza ou medo. Então simplesmente me lembro da fórmula usada nestes trabalhos e adiciono isso ao meu trabalho quando preciso de um sentimento forte no momento certo.

Quanto aos símbolos visuais, já que tratava-se de um mago ou sacerdote, não poderia empunhar armas afiadas (de acordo com as regras do Dungeons & Dragons), então usei uma pele de animal para conectar negativamente o personagem à natureza, distiguindo-o de um druída. O ambiente deveria ser um Icewind Dale (algo como Vale Nevado), então eu queria suegerir neve e montanhas de uma forma simplificada. Seus olhos são laranja e profundos para sugerir seus poderes mágicos. Alguns destes símbolos vão aparecendo enquanto sigo, são coisas que penso enquanto pinto. Confio que terei ideias enquanto avanço no trabalho. Detalhes menores, como os olhos, são usualmente a última coisa em que penso. O mesmo acontece para as armas que o personagem carrega (a não ser em caso de itens específicos).

Dark Elf Jason Manley etapa 1

Em primeiro lugar e mais importante, decido pela atmosfera, luz e gama de cores. Começo pintando com uma temperatura oposta ao que será a dominante. Se estou pintando algo com luzes como as de um dia nublado, começo com um tom de siena abaixo do médio. Aprendi isso estudanto Rembrandt, ele fazia o mesmo. Se estou pintando uma luz quente, como um dia ensolarado ou pôr do sol, uso um valor mais claro, intermediário complementar das luzes mais alaranjadas ou amareladas. Isto aprendi estudando Monet. Diferentes cores na pintura da base vão ajudar a realçar as cores que melhorarão a qualidade das luzes e da atmosfera da peça. Partes da pintura de base podem continuar aparecendo depois (Rembrandt).

Dark Elf Jason Manley etapa 2

Agora que tenho um tom básico em meu papel, com um pouco de variação, uso um tom mais escuro de uma cor similar para determinar formas e pose da minha figura. Não adiciono tantas linhas quanto costumo e tento também não pintar duas vezes o mesmo lugar. Quero deixar o máximo das marcas iniciais, já que isso diminui o tempo de pintura. Aprendi isso observando Sargent, Velasquez e Frazetta.

Dark Elf Jason Manley etapa 3

Usando uma cor mais clara do que da pintura de base começo a definir formas claras, que ajudarão a mostrar a figura e a determinar meu espaço e atmosfera. Começo a colorir para ter ideia exata de que cores quero. A dica neste ponto é trabalhar rápido e deixar fluir. Não me preocupo tanto com o desenho quanto me preocupo com a composição, atmosfera e qualidade das luzes, sugerindo formas e gama de valores. Aprendi isso com Justin Sweet na Interplay, e também fazendo pequenos estudos de cor quando trabalhava com mídia tradicional.

Os mestres também fizeram estes estudos de cor. Os Impressionistas tornaram-se famosos por suas pinturas que frequentemente eram estudos de cor, e que são exemplos maravilhos disto. Os trabalhos de Monet, Cassatt, Degas, Sargent (suas aquarelas) são exemplos perfeitos de como estudos de cor devem ser. Em comparação com os trabalhos de Bouveret, Vermeer ou Bouguereau, eles não são nada mais do que isso. Mas os Impressionistas são incríveis e também dão uma impressão de luzes e movimento reais, que outros não conseguem mesmo nos trabalhos mais incrivelmente renderizados.

Dark Elf Jason Manley etapa 4

Já que tenho a ideia exata de paleta, atmosfera e da pose que quero, é hora de refinar a pintura. Começo corrigindo as formas, valores, cores e tento manter o máximo do que foi feito antes. Não gosto de pintar duas vezes a mesma coisa, mas faço isso se preciso. Trabalho no papel todo ao mesmo tempo. Dedico-me apenas a partes generalizadas da pintura agora, pois detalhes serão facilmente adicionados depois. Velasquez, Sargent, Millet, Daumier e Zorn fazem isso também. Velasquez é o autor no qual vejo isso com mais facilidade. Suas cores claras, escuros mais profundos, os menores detalhes e partes mais intrincadas estão normalmente na superfície da pintura, indicando que foram feitos por último. Uma visita ao seu museu local vai mostrar-lhe o que estou falando. Um bom livro de arte com reproduções de qualidade também ajudam.

Dark Elf Jason Manley etapa 5

Continuo refinando até ficar satisfeito com a pose, formas gerais e com o fundo, no qual geralmente pinto primeiro.

Agora é hora de começar a pintar as mãos, a espada e detalhes nos trajes que são áreas pequenas da pintura se comparados com o fundo grande ou o robe em geral. Vou limpar o rosto um pouco e mover-me ao redor, detalhando a peça onde interessa. Faço isso até achar que está pronto e então aplico zoom para observar a pintura em seções específicas, para ter certeza de que está tudo corrigido. Quero estar certo de que não arruinei partes boas do conjunto e que pintei por cima de partes que não me interessavam. Começo com um pincel largo e termino com os bem pequenos. Isso é outra coisa que me deixa livre e ajuda a terminar o trabalho mais depressa.

Trabalho finalizado

Elfo Negro de Jason Manley - finalizado

Vou deixar alguns links dos artistas que mencionei antes, para que você veja do que falei, embora provavelmente você já os conheça pelo menos de nome. São alguns dos maiores artistas da história e podem ensinar quando você está travado. São artistas para os quais você deve abrir os olhos e humilhar-se diante de seus trabalhos; vão ajudá-lo em qualquer momento. As mídias mudam mas os métodos são similares.

Jason Manley

 

Como o artigo é muito antigo, todos os links originais já estão fora do ar, então segue uma lista com outros, onde você pode ver trabalhos dos artistas citados no tutorial.

Author

Fundador do Tutoriart em 2010, é ex-instrutor de Photoshop, design web e gráfico. Em quase uma década de redação online, tem cerca de 1500 artigos publicados. Gerencia também o Memória BIT.

2 Comments

  1. Fantástico! Esse mago negro parece uma pintura impressionista e em pensar que foi feito no computador…
    Só achei que você devia ter posto o trabalho final aqui também. Vi o último quadro no tuto original com os últimos detalhes da roupa, da mão ossuda e os olhos. Tem uma diferença considerável em comparação à penúltima (última que foi postada aqui).
    Btw, obrigada por traduzir e também pelos links dos pintores.
    (não sabia que Degas era tão interessante! ^^”)

    • Verdade, foi falha minha, nem notei que não tinha postado o trabalho finalizado. Já corrigi. Obrigado por lembrar!

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