A farsante do Vale do Silício: Photoshop ajudava a simular amizades

Como Shirley Hornstein chegava ao estrelado local usando o Photoshop para simular amizades e influência.
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O Vale do Silício é aquela região na costa oeste americana onde estão concentradas diversas das maiores empresas de tecnologia. Microsoft, Google, Cisco, Yahoo, Apple, NVidia, Adobe, além da Universidade de Stanford, ficam na área que abrange cidades da Califórnia como Palo Alto, Santa Clara, San Jose, etc.

O sonho de milhões de jovens com espírito empreendedor pelo mundo é trabalhar nos modernosos escritórios de tais companhias — além de, por extensão, frequentar festas, reuniões e eventos sociais diversos que fazem parte do glamouroso "pacote".

Mas estar lá exige mais que um currículo recheado: ter contatos é essencial para subir rapidamente degraus que levam alguém de desconhecido a talento promissor, de zé-ninguém a próximo Zuckerberg em potencial. Nesse anseio, alguns não têm pudor em usar qualquer ferramenta para conseguir.

Até o Photoshop...

[mapa tipo="roadmap" zoom="10" legenda="O Vale do Silício concentra locais de trabalho dos sonhos para geeks do mundo todo."]silicon valley[/mapa]

O curioso caso de Shirley Hornstein

Como em todo círculo social, estar e principalmente aparecer com pessoas influentes ajuda a subir como um foguete. No Brasil, ficou famoso o caso de Marcelo Nascimento da Rocha — como o próprio admitiu, "um dos maiores falsários do país". Acusado e condenado por múltiplos crimes de fraude, ele usava documentos falsos, e seu natural talento para a mentira, para se passar por músico famoso, empresário e até olheiro da Seleção. Tirou vantagem das posições para entrar nas melhores festas, viajar de graça e explorar ricos incautos. Com a progressão da pena, cumpriu 4 anos em regime fechado, virando palestrante e escritor (claro que focado em suas aventuras e aptidões).

Shirley Hornstein
Shirley Hornstein "com" Justin Timberlake.

Já a jovem do título do artigo resolveu se "enturmar" com os figurões do Vale de outra forma: Photoshop. Surgida do nada, Shirley Hornstein fazia alarde sobre cargos e posições que nunca teve; para provar que era parte da hi-society, postava em redes sociais montagens feitas no software da Adobe, ao lado de celebridades globais e locais, como músicos, atores e empreendedores. A maioria era bem "instagramizada", com filtros pesados que as tornavam convincentes, ou menos artificiais, mesmo para olhos treinados.

Quando apresentava-se a novos grupos, ela falava de suas excelentes conexões e contribuições que nunca aconteceram. Até investidora de fundação no Dropbox teria dito ser. Ex-colegas que preferem não se revelar garantem que, apesar de sua fluência e das mentiras bem elaboradas, algo parecia "fora do lugar".

De mais uma na multidão à referência local, sua evolução foi bombástica. Graças aos contatos forjados, Hornstein participou de premiações, figurou em listas, foi citada, valorizada. Apareceu até na conceituada Forbes, na posição 33 entre as 100 Maiores Investidoras-Anjo de 2011. Esteve em confraternizações e premiações como o CrunchAwards aí abaixo (essa não é montagem), importante no meio empreendedor.

Shirley Hornstein entre empreendedores no The Crunchies 2011. Foto: Ken Young
Shirley Hornstein entre empreendedores no The Crunchies 2011. Foto: Kenneth Yeung

A casa caiu

Mas como diria a vovó, "mentira tem pernas curtas", e quando ela te leva alto, para os holofotes, fica impossível continuar "na moita". A bola de neve que ela iniciou já não podia ser interrompida, e desceu destruindo tudo. A fraude foi detectada, vindo abaixo com um artigo do TechCrunch tão logo as imagens originais foram descobertas.

O que sequer requeria grande esforço: algumas foram tiradas ingenuamente do Facebook, caso da montagem com Andy Samberg.

Shirley Hornstein e Andy Samberg
Shirley Hornstein "com" o ator e roteirista Andy Samberg? É, não...
Shirley Hornstein com Timberlake
E com Timberlake? Também não.

Para piorar, Hornstein havia mentido sobre ter trabalhado com a Founders Fund, empresa de capital de risco que tem Sean Parker, ex-presidente do Facebook e co-fundador do Napster, como um dos executivos-investidores. Isso lhe rendeu um processo da companhia, que negou qualquer tipo de parceria com Shirley.

Humilhada publicamente, restou à moça postar um pedido de desculpas em seu blog. Sob o título "An Honest Apology", ela deu as razões que a levaram a criar uma vida de faz-de-conta, com típicos sinais de mentirosos patológicos. Em suas próprias palavras, "o castelo de cartas desmoronou":

Por que deixei isso ir tão longe? [...] Sou incrivelmente insegura, e tenho lutado com minhas inseguranças por quase toda a vida. Mentir se tornou meu mecanismo de proteção, porque permitiu que eu cobrisse tudo que odiava em mim.

Sem nenhuma moral no Vale do Silício, agora ela estaria envolvida com o cenário político. Apropriado? Tragicômico talvez.

Moral da história? O objetivo não é execrar (ainda mais) Hornstein, que parecia ter um problema psicológico, mas o episódio tem valor como lição. Se for enfiar-se numa foto de alguém com Photoshop — ou outro software —, que seja como brincadeira ou estudo. A mesma tecnologia que ajuda a enganar, não ajuda a manter a farsa por muito tempo.

Ou de novo como vovó dizia, "o diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder".

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