Comic Sans e Corel Draw, os odiados do design. Merecem tanto?

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Seja você um profissional do design, ou amador que faz suas montagens e ilustrações pessoais, talvez tenha entrado no barco dos combatentes do Corel Draw e da fonte Comic Sans.

Párias, verdadeiros marginais da sociedade designer, hostilizados e xingados na rua (ou quase isso), o software de edição vetorial e a famosa fonte da Microsoft viraram tipos de ícones da ruindade, do mal feito, já é senso comum. Alguma coisa foi feita no Corel? Não presta. Inventaram de colocar Comic Sans naquele cartaz? Nem precisa ver, é ruim. O cartaz foi feito no Corel e usando Comic Sans? Piorou de vez, foi coisa do sobrinho de oito anos.

Como chutar cachorro morto é fácil, amadores ou até gente que não tem nada a ver com a estória aproveitam-se pra demonstrar seu "alto nível técnico". A moda do "odeio Sans" e "odeio Corel" já foi cantada até por quem nunca fez um esboço de nada no computador. Como se bradar isso aos cinco mares fosse atestado de competência - não que seja de incompetência.

Será que tanta aversão se justifica, ou é só parte do fenômeno da internet - que sempre existiu, mas ficou potencializado pela exposição massiva - chamado "haterismo"? (A mania de odiar gratuitamente ou para fazer parte de um grupo de outros odiadores, geralmente com um status graças a isso).

Corel Draw

Corel Drawn X6Criado em 1987 pela Corel Corporation, do Canadá, pelos engenheiros Michel Bouilon e Pat Beirne, O Corel Draw foi lançado em 1989, rodando nos Windows 2.x e 3.0. Com ferramentas diversas para ilustração e edição de imagens vetoriais, e a utilização de fontes True Type a partir do Windows 3.1, transformou-se numa ferramenta poderosa para lidar com texto e imagens juntas, dispensando outras como o Adobe Type Manager. Somado ao programa de edição de fotos (PhotoPaint) e gerenciadores de fontes, fez parte de um dos primeiros pacotes completos para edição gráfica.

Foi um grande sucesso durante muito tempo, e no começo dos anos 2000, e antes disso, era quase padrão em escritórios e estúdios de design. Com o passar do tempo, porém, o Adobe Illustrator foi ganhando cada vez mais adeptos. Por quê? Por um misto de fatores como os constantes bugs do Corel (quem nunca viu o programa fechar no meio de alguma edição mais complexa num arquivo muito grande?), e a evolução natural do Illustrator, que antes era sim bem mais difícil de aprender. Ficou estabelecido a partir de então que o Corel era aceitável para iniciantes, por lidar bem com arquivos menores e ter uma curva de aprendizagem interessante, mas jamais adequado para profissionais sérios.

A presença menos frequente nos ambientes profissionais fez com que o formato .CDR fosse perdendo cada vez mais espaço para o .AI, e hoje temos quase um domínio do software da Adobe, embora alguns ainda insistam no Corel - não é incomum encontrar cursos online e presenciais, e freelancers que o usam.

Merece o ódio?

MEME corel draw

Não merece. Um usuário bem acostumado com os atalhos e ferramentas do Corel pode fazer qualquer coisa que faria no Illustrator. Já estou afastado há tanto tempo dele que esqueci a maioria dos atalhos, mas quando tinha prática, era uma coisa bem ninja mesmo. Se dominado, serve pra quase tudo, até diagramação de jornal tipo tabloide fiz com ele por volta de 2005 - não sabia usar QuarkXpress 🙁 Ficou um trabalho bem decente, devo dizer, e os arquivos eram aceitos sem problema nos birôs gráficos.

Mas de alguns anos pra cá criou-se quase um meme em torno do Corel, como se fosse a coisa mais inútil da Terra, o que é ignorar os incontáveis bons trabalhos já feitos e que continuarão sendo feitos com ele. Grande parte dos que criticam nunca usaram, nem viram ninguém usar. Virou modinha falar mal do Corel Draw e elogiar o Illustrator, como se isso desse atestado automático de designer sabichão. "Olha esse cara que fera, ele odeia Corel, então deve ser muito bom, quero andar com ele no recreio".

Se você não fará uso "hardcore" do software (arquivos de centenas de MBytes, com centenas de objetos e camadas), pode perfeitamente usar o Corel para desenhar logos, ícones, ilustrações vetoriais em geral. Como também pode usar o Illustrator. Se nunca experimentou nenhum dos dois, não se deixe levar pela opinião dos outros (nem pela minha, que estou defendendo o Corel aqui): faça o teste com ambos e descubra qual ferramenta é mais confortável pra você. Conhecendo as duas, será um profissional mais completo.

Fonte Comic Sans

comic sans euro sign
Em versões antigas da Comic Sans, o sinal do euro tinha um olho! E é sério!

Desenhada por Vincent Connare e lançada pela Microsoft em 1994, a Comic Sans MS foi especialmente desenhada para o aplicativo Microsoft Bob, que alterava o ambiente gráfico do Windows para algo mais apelativo aos usuários menos experientes (um cachorro que ficava dando dicas, nos moldes do famoso clip do velho Office).

O designer inspirou-se nos balões de quadrinhos como Watchmen e The Dark Knight Returns para criar uma fonte típica de diálogos, arredondada e casual. Acabou não sendo concluída a tempo de fazer parte do Bob, mas a equipe do Microsoft Movie Maker, que também usava guias e textos em balões de diálogo, resolveu usar a Comic Sans. Mais tarde, diálogos passaram a ser narrados mas balões ainda estavam lá com a fonte. Acompanhando todas as versões do Windows depois disso, foi usada em programas como o Microsoft Publisher e até o Internet Explorer. No Windows 8, ganhou a variação italic.

Como era uma das poucas fontes tipo comic disponíveis aos usuários do Windows, ela foi caindo no "sobreuso", ou seja, começaram a usá-las nos contextos mais absurdos. Placas de velório, sinais em agência governamentais, menus de pizzaria, embalagens de remédio e o que mais se pode imaginar (ou não se devia imaginar): lá estava a Comic Sans com seu jeitinho relaxado e até um pouco infantil.

Designers passaram a detestá-la, alguns chegando ao extremo de pedir o banimento da fonte.

Merece o ódio?

Só um pouco, talvez. Ela não é a melhor fonte do gênero, mas levando em conta a facilidade de acesso, não se pode reclamar muito. O problema foi o uso sem preocupação estética que "queimou o filme". O artista Dave Gibbons, autor de Watchmen e portanto uma das inspirações da Comic Sans, disse que "a Comic Sans é uma porcaria. Acho ela particularmente feia". Não são poucos os que a veem como uma fonte pobre, um tanto mal desenhada, difícil de ler, com inconsistências técnicas (kerning, altura das letras). Versões antigas, anteriores ao Windows XP, tinham um glitch no sinal de euro que parecia um olho! Com alguém levaria qualquer coisa escrita com essa fonte a sério?

Acima de tudo, a Comic Sans é divertida, extremamente casual. Não ouse criar um currículo com ela. Se fontes são o equivalente ao nosso tom de voz na escrita, seria como fazer a entrevista de emprego com voz de criança ou de quem está numa festa. Nunca a coloque em coisas "sérias". Com o uso apropriado ela pode até servir - embora seja bem antiga e tenha opções melhores, algumas gratuitas, veja nesse artigo com fontes comics.

Logos modificados com Comic SAnsO designer Todd Klein, letrista de comics clássicos e autor de várias fontes do gênero, mostrou-se também como um dos que abominam a Comic Sans, compartilhando em seu blog opiniões de leitores como:

"a Comic Sans não serve para comics, ela precisa de um novo nome: MESS, de "Microsoft Elementary School Sans"" (Note o trocadilho de mess (porcaria) com "fonte de escola primária."" No blog Kleinletters.

"a Comic Sans é ruim de ler, chata, uma porcariazinha de fonte que de forma insidiosa foi se metendo em nossas vidas, como um câncer, que precisa ser erradicado de forma dolorosa. Se você receber um e-mail sério escrito em Comic Sans, não o leia. Se receber convite para uma festa em Comic Sans, não vá." No blog Kleinletters.

Mas nem todos a odeiam. Mike Lacher escreveu um artigo irônico chamado "I'm Comic Sans, asshole", onde ela própria "fala" de seu currículo invejável e quase onipresença, e sobre como foi mal empregada ao longo dos tempos. Já os designers franceses Thomas Blanc e Florian Amoneau lançaram em 2011 o Comic Sans Project, em que redesenham logotipos famosos usando a Comic Sans. Repare como todos ganham um visual infantil - o propósito em que ela deveria ser empregada sempre.

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