Ideias

O retrato do cotidiano americano por Norman Rockwell

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Um dos artistas mais populares do século XX na América, Norman Rockwell é o mais lembrado por sua visão da cultura e do estilo de viver americano, com uma atmosfera nostálgica e idealista.

Nascido na Nova Iorque de 1894, começou a seguir sua vocação artística ao ser transferido no ensino médio para o Chase Art School, aos 14 anos. De lá, foi para a National Academy of Design e depois para o Art Students League, onde teve contato com grandes mestres da pintura e anatomia, incluindo Frank DuMond, um dos mais respeitados professores de arte do século.

Suas primeiras ilustrações foram para revistas, e aos 19 anos tornou-se editor de arte da Boy’s Life, posto que manteve por três anos, período no qual produziu diversas capas. Seria o primeiro passo para, poucos anos depois, começar a ilustrar as capas da The Saturday Evening Post, o que faria pelas 4 décadas seguintes e onde tornou-se renomado.

Só para a Evening Post foram 321 capas, entre os mais de 4 mil trabalhos originais que produziu. Muitos se perderam com o tempo, outros pertencem a coleções pessoais e muitos estão no museu que leva seu nome. As mídias foram as mais diversas, incluindo revistas, livros, calendários, cartazes de cinema, selos, cartas, murais…

Seu estilo era minucioso e muito expressivo, às vezes exagerado, quase caricato, mas sempre proposital, destacando o que achava importante valorizar no retrato de situações. Fazia dezenas de esboços, alguns coloridos, antes de trabalhar a tela e costumava usar familiares, amigos e vizinhos como modelos. A forma como pintava alegria e tristeza, e como parecia tirar o máximo do sentimento de cada cena o tornou tão requisitado.

Mas essa forma de criticar ou retratar a sociedade rendeu adjetivos depreciativos ao estilo, descrito como “Rockwellesco” por abusar do sentimentalismo dito popularesco. Alguns pintores e críticos o chamam de “ilustrador” em vez de “pintor” pelo mesmo motivo e no mesmo tom depreciativo, colocando suas artes no segmento kitsch; como preferiu aproximar-se tanto do pop, do cotidiano, em vez de embrenhar-se pela crítica “cabeçuda”, acabou irremediavelmente tachado.

Mas mesmo que parte dos intelectuais não gostem tanto, é indiscutível seu talento e influência. É quase impossível ver uma revista dos anos 50 ou 60 que não tenha algo do próprio ou similar, como os clássicos anúncios de Natal da Coca-Cola. Essa influência se extendeu não só pela pintura: o filme Forrest Gump empresta fortes elementos visuais de Rockwell como abordagem para retratar a sociedade americana daquela metade de século XX; a capa de Only a Lad, da banda Oingo Boingo, é uma paródia de uma ilustração de Rockwell, de 1960 (a capa do Manual dos Escoteiros).

Viveu até os 84 anos em Stockbridge, Massachusetts, onde hoje sua antiga casa é um museu. A primeira-dama Rosalynn Carter esteve em seu funeral. Pela contribuição à arte e os retratos dos Estados Unidos, recebeu a mais alta honraria civil americana, a Medalha Presidencial da Liberdade.

Willie Gillis

Personagem de uma série de cartazes que ilustrou durante a Segunda Guerra. Esses cartazes, junto com os da série The Four Freedoms e Rosie the Riveter, contribuíram muito com o sucesso dos war bonds (títulos para fundos que financiavam o exército).

Wiilie Gillis at College

Willie Gillis in Convoy 1943

Willie Gillis New Years Eve 1944

Willie Gillis Package from Home

Rosie the Riveter

Um ícone cultural americano, representa as mulheres que trabalharam em fábricas durante a guerra. Elas passaram a ocupar novos postos, antes predominantemente masculinos, já que os homens estavam nos campos de batalha.

Não deve ser confundido com o também icônico poster de J. Howard Miller, “We Can Do It!“, que não recebeu o título Rosie the Riveter durante a guerra, mas muito tempo depois. O de Rockwell mostra uma operária forte, aparentemente orgulhosa de sua posição, lanchando enquanto mantém uma ferramenta no colo, com a bandeira americana ao fundo.

Rosie the Riveter Rockwell

Four Freedoms

A série de pinturas a óleo foi feita em 1943, em referência ao discurso de Franklin Delano Roosevelt sobre as 4 liberdades básicas que devem ser universalmente protegidos, hoje parte da carta dos Direitos Humanos. O idealismo das imagens tornou especialmente a obra Freedom from Want uma cena emblemática de Ação de Graças, um dos mais típicos feriados americanos.

Freedom From Fear Norman Rockwell 1943

Freedom From Want Norman Rockwell 1943

Freedom of Speech Norman Rockwell

Freedom to Worship Norman Rockwell 1943

The Problem We All Live With

Na fase final da carreira, Rockwell pintou obras consideradas mais “sérias”, como essa que tornou-se importante na luta pelos direitos civis. Mostra a menina Ruby Bridges, então aos 6 anos, a caminho da escola – foi a primeira criança negra a frequentar uma escola só para brancos, em Nova Orleans.

A parede ao fundo tem inscrições racistas como “Niger” e as letras “KKK”, além da mancha de um tomate arremessado contra ela. O presidente Barack Obama sugeriu a instalação da pintura no Salão Oval, na Casa Branca.

The Problem We Live With Norman Rockwell

Saying Grace

Inspirado ao ver uma família fazendo oração antes da refeição em um restaurante, Rockwell pintou essa obra em 1951, também com o tema Ação de Graças. Mostra uma senhora e um garoto orando no restaurante, sendo observados por outras pessoas. Essas representações tão comuns da família americana foram o tema principal dos trabalhos de Rockwell, como em Walking to Church.

Saying Grace Norman Rockwell 1951

Walking to Church

Publicada em 1953, a pintura mostra uma família clássica caminhando pela rua rumo à igreja. Junto com Saying Grace e The Gossips, esteve por empréstimo no museu de Normal Rockwell, mas foram vendidos após longa batalha judicial em 2013, indo parar numa coleção particular.

Walking to Church Norman Rockwell 1952

The Runaway

De 1958, a pintura em óleo mostra um menino que fugiu de casa conversando com um policial num café. Alguns críticos a veem como demonstração de homoerotismo velado devido à imagem masculina forte; além disso, homens de costas, com o traseiro quase no centro da imagem, ocorrem em várias artes de Rockwell, às vezes com meninos.

Uma biografia de Rockwell escrita pela jornalista Deborah Solomon (American Mirror: The Life and Art of Norman Rockwell) vai mais longe e sugere que suas obras são fruto de uma pessoa depressiva com tendência ao homossexualismo e até pedofilia, pelos frequentes garotos amáveis que mostra, enquanto as meninas são quase sempre “desinteressantes”. A pintura Girl at Mirror também foi comentada como tema de pedofilia (veja mais adiante). Ela acabou sendo duramente criticada pela família de Rockwell e outros jornalistas.

The Runaway Norman Rockwell 1958

Doctor’s Office

Publicada como capa da Evening Post em 1958, foi usada como ícone do ideal da saúde familiar, empregada em cartazes de planos de saúde, produtos farmacêuticos, etc. Segundo o próprio artista, seu intento era mostrar o garoto, prestes a levar uma injeção, curioso com as credenciais do médico na parede – representaria a preocupação das famílias com a qualidade do atendimento médico.

Quanto das nádegas do garoto apareceria virou uma pequena discussão entre seus amigos e familiares, alguns dizendo que devia ser mais, outros menos, até que enfim ele trancou-se no estúdio para decidir o que ficou no trabalho finalizado.

Doctors Office Normal Rockwell

Girl at Mirror

Pintada em 1954, a garota se olhando no espelho parece duvidar da própria beleza enquanto tem uma revista com a foto da atriz Jane Russell no colo. Um claro retrato da aproximação da adolescência e o início dos questionamentos sobre beleza e os padrões sociais sobre o assunto.

Mas a biografia de Deborah Solomon diz que a pintura é um sinal da “excitação e vergonha” de Rockwell “pela chegada da sexualidade na adolescência“, citando a posição supostamente sexualizada da boneca na borda do espelho. Outros críticos preferem as pernas abertas do brinquedo, uma em cada lado do espelho, como imagem metafórica da vida da menina: meio criança, meio adolescente, o espelho como a divisão entre as fases.

Norman Rockwell Girl at Mirror 1954

At the Principal’s Office

De 1953, mostra uma menina na sala do diretor, com um olho roxo, descabelada e roupa amassada, provavelmente por causa de uma briga. Apesar disso, ela parece feliz, passando a ideia de liberdade, mas a professora na sala do diretor lança um olhar preocupado.

Vista como uma típica representação dos papéis genéricos na sociedade americana da época – a menina “masculinizada” pela briga está feliz, mas foi levada para a diretoria por uma preocupação de seus mestres em que mantenha a postura de uma “dama”.

At the Principals Office Norman Rockwell

Fixing a Flat

Pintada em 1946, mostra duas mulheres com a “mão na massa”, trocando o pneu do carro, enquanto um homem na varanda de sua casa paupérrima apenas observa inerte a cena. Interpretada por críticos de duas formas: na primeira, a óbvia demonstração de mulheres em tarefas antes masculinas, já que durante a guerra muitos partiram e elas precisaram ocupar tais vagas. Também seria um desenho da ideia de que com um pouco de perícia e esforço, as mulheres poderiam fazer qualquer coisa por si mesmas, enquanto eles continuavam preguiçosos em suas posições.

Outra visão cita uma possível disparidade sócio-econômica entre os gêneros – enquanto homens iam para a guerra e voltavam sem conhecimento técnico para as vagas de trabalho, as mulheres se aperfeiçoavam e estudavam, não precisando ou não podendo mais contar com eles – enquanto consertam o carro, o homem não conserta nem a própria casa.

Fixing a Flat Norman Rockwell

A galeria de Rockwell é muito, muito vasta e magnífica, sugiro que faça uma boa pesquisa se quiser ver mais. A seção de Rockwell na Wikipaintings é um bom começo.

Author

Fundador do Tutoriart em 2010, é ex-instrutor de Photoshop, design web e gráfico. Em quase uma década de redação online, tem cerca de 1500 artigos publicados. Gerencia também o Memória BIT.

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